A Reza dos Mistérios– Juvenal Jorge Dal Castel


Toda dor foi suportável, impossível foi conter o gozo

Ao que passa a vida inteira sem entender não adianta                                        
nem explicar o incompreensível e o inexplicável.
Em matéria de mistérios, se não me falha minha memória,               
ninguém foi mais misterioso que o Zé Ramalho.  
Bicho-de-sete-cabeças do primeiro ao quinto jogo na mula         
só de pescoço que corre e pula cuspindo fogo.

Toda dor foi suportável, impossível foi conter o gozo

Não foi tão grave o pecado pra ser criminoso nem foi tão culpado,
apenas culposo, nem é pecado querer o gozo.        
Debulhando meu espinhoso rosário de contas intermináveis
acumulando vou repetindo o mesmo pecado.                  
Em pleno gozo, sem dor nem glória, não ter mistérios é luminoso
É bem  mais feliz, é bem mais seguro não ser curioso.

Toda dor foi suportável, impossível foi conter o gozo

Sem ter participado deste ministério e desobedecendo     
a lei de Maquiavel só fui promovido a simples subalterno.
Procurando meu Bom Pai Eterno encontrei o diabo c’as roupas do Filho todo colorido me persuadindo a ir pro inferno.              
Não há mistério em paixão de cama, foi desvendado pelos pelados,                 
Mas o perdão só foi resguardado para quem ama.

Vem, amiga, pro lago de cá, que eu te mostro
O velho rio, que hoje, lago assim se chama.
O doce lago riu do nome e não reclama.            
Gente, luzes, Sol e Lua ,espelho vivo d’água em chamas.
Porque um gaúcho da cidade, morando em apartamento,
Com seus cavalos na garagem, também em confinamento,
Solta a cincha e vai pro parque pra caminhar  bem faceiro
Com o amargo que se dissolve no  porongo de água quente.

Meu bem, eu vou te mostrar o lago doce Guaíba.     
Vem que eu vou te levar pro lago doce Guaíba.    
É bom! Vem experimentar o lago doce da vida.       
Vem comigo morar do lado do lago doce da vida.   

Os meus olhos campereando o mergulho dos luzeiros
Como fossem longos cabelos do amor de minha vida.
Num olhar de travessia vejo acenderem as luzes
Da grande mãe que de longe ainda vigia a filha já bem crescida.
Neste espelho do firmamento, aquaplana meu pensamento;
Chapéu, bombacha e lenço, meu sagrado paramento,
Atavio com que apresento no ritual dos elementos
A oferta do ensinamento que tomei dos estropios.